Opinião: “Este chão que você pisa tem história”

Opinião: “Este chão que você pisa tem história”

Famílias de Luiz Busnardo, Francisco Cadorin, Francisco Valle, Egidio Voltolini, Vicente Piva, João Gullini, Constante Tridapalli, entre outras famílias… foram inúmeros voluntários envolvidos na construção da nossa Igreja Matriz São Virgílio, entre os anos de 1940 e 1942. Isso mesmo: VOLUNTÁRIOS. Incentivados pela comunidade da igreja, os neotrentinos arregaçaram as mangas, deixaram o conforto de suas casas aos finais de semana e se dedicaram bravamente na construção de um novo templo para o pequeno município de Nova Trento.

Naquela época, a antiga matriz – antes denominada Sagrado Coração de Jesus – foi demolida para dar lugar ao “novo”. Na monografia do neotrentino, Anderson Sartori, intitulada “O Cotidiano de Nova Trento durante o processo de construção da Igreja Matriz: 1935-1942”, há relatos de inúmeros idosos que se posicionaram contra a decisão tomada pelos padres jesuítas. E, mesmo com parte da população contrária à decisão, a antiga igreja foi demolida para dar lugar a esta que conhecemos hoje, inaugurada há exatos 74 anos, em 2 de agosto de 1942.

Nova Trento Paróquia São Virgílio

E, 74 anos depois, nos deparamos com mais um fato parecido na história: eis que surge um “projeto para reforma” da nossa igreja, que pretende retirar o atual piso (com ladrilhos), colocando em seu lugar o porcelanato “moderno”. A “reforma” inclui ainda a retirada de todas as imagens de santos (que hoje estão nas colunas), mudança do altar, altar-mor e iluminação, seguindo os “moldes” da Capela do Santíssimo, recém-inaugurada.

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Desculpem os atuais “defensores da modernidade”, mas estamos, aos poucos, acabando com a nossa história, com as nossas raízes. Esquecem estas pessoas que nossos antepassados suaram, dedicaram seu tempo, suas vidas, para construir este templo. Voluntários em tempo integral, não mediram esforços para erguer e decorar a nossa atual Igreja Matriz.

Ao “modernizar” um espaço histórico como nossa matriz, vamos “matando” aos poucos a nossa história. Vamos deixando para trás o que nossos antepassados nos presentearam. Vamos deixando para trás as inúmeras horas dedicadas na construção, do “fazer arte” desses descendentes de italianos, que muito fizeram, apesar dos poucos recursos.

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Lembro como se fosse hoje o dia em que registrei a demolição da primeira escola do município, a Pio XII, pertencente à família Marchi. Eu era “foca” (novata) no jornalismo, mas já sabia dar valor à nossa história, às nossas raízes. Infelizmente o poder público, naquele tempo, não se envolveu, e todo o legado que aquele casarão possuía veio abaixo. Fico pensando: se aquele espaço histórico tivesse recebido o devido valor (tombado e, depois, restaurado), hoje ele seria uma atração turística e, muito além disso, seria um espaço parta resgatar a nossa história, um museu, quem sabe. Temos exemplos claros na cidade vizinha, Tijucas, que transformou o Casarão Galotti e, hoje, ele é um dos espaços mais procurados pela população e pelos turistas que por aí passam. Sem falar em outros casarões que também já foram ao chão na nossa cidade:

Casarão Galotti, antiga Prefeitura de Nova Trento (que ficava ao lado do casarão da família Tell), entre outros casarios que já não fazem mais parte do nosso cotidiano há muito tempo.

Mas, voltando para a nossa Igreja Matriz, acredito que não podemos simplesmente sermos negligentes e pensarmos “ah, é bom que inovem, que modernizem”, porque isso não me convence, em hipótese alguma. O que me motiva a escrever este artigo é acreditar que a história das nossas famílias, dos voluntários que se dedicaram na construção desta igreja é muito mais valioso que qualquer porcelanato, que qualquer “reforma” que irão tentar fazer neste espaço. E mais: que os ladrilhos que estão lá hoje são nosso legado, nossa herança, um patrimônio material, mas permeado de valores imateriais, de incalculável valor.

Em artigo divulgado na Revista Confluências Culturais (em 18 de março de 2015), pela Editora Univille, os autores Marcele Della Flora Cortes e Caryl Eduardo Jovanovich Lopes explicam que “a origem do ladrilho hidráulico remonta aos antigos mosaicos bizantinos, criados para decorar pisos e paredes, assim como para expressar a arte e a religiosidade e educar os fiéis que não recebiam uma ‘instrução escolar’. Essas peças foram largamente aplicadas na Europa como revestimento de parede e piso, de áreas frias. Foram também muito usados no Brasil, sendo importados de Portugal, da França e da Bélgica.” Além disso, estes mesmos ladrilhos foram pintados a mão, “e receberam o nome de ladrilho hidráulico pelo fato de ser apenas molhado, sem processos de queima.”

Outro ponto interessante do artigo destaca o ladrilho hidráulico como patrimônio histórico: “Os ladrilhos devem ser vistos como um patrimônio a ser preservado, não somente pelo aspecto da restauração, mas também pelo processo artesanal de fabricação, cujo seguimento constitui uma herança para o Brasil e para o mundo, uma vez que são poucos os países que ainda hoje mantêm os segredos de sua produção.”

Poderia, então, escrever laudas e laudas sobre preservação de patrimônio, valorização histórica e cultural. São muitos exemplos, muitas situações. Mas, neste caso especial em Nova Trento, sinto-me na obrigação de chamar a atenção das pessoas para nosso bem maior, que é a herança dos nossos antepassados. Afinal, o que ficará para nossos filhos e netos? O que vamos dizer aos nossos descendentes quando perguntarem sobre a mudança do nosso piso da Igreja? Que apenas foi um capricho por querer “trazer o moderno”? Ou vamos nos orgulhar e dizer: “sim, aqui lutamos para preservar nosso patrimônio, este chão que você pisa tem história, foi seu avô, bisavô, tataravô quem construiu”?

Elis Facchini – Jornalista

Neotrentina, moradora do município de São Paulo – SP

Imagens: Alfero.com.br / Rodrigo Sartori 

Notícia Os Dias

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